O que é Comunhão
dos Santos?
"Comunhão
dos Santos" (Koinonía ton hagíon) é uma expressão antiga da literatura cristã, que pode ser
entendida de duas maneiras:
1) Comunhão ou solidariedade entre todos os fiéis.
2) Comunhão com as coisas santas ou com o tesouro dos méritos de Cristo, que
são aplicados aos fiéis pelos sacramentos.
Ambas as significações estão corretas, mas a primeira decorre da segunda. Isto
é, existe, primeiramente, a comunhão de cada cristão com os méritos de Cristo e
o tesouro da igreja, e, em conseqüência, há a comunhão ou solidariedade mútua
daqueles que comungam com tal tesouro. Somos vasos comunicantes, de modo que
quem é rico da graça divina, faz com que ela transborde sobre os irmãos; todavia
quem se empobrece de bens espirituais, empobrece também a comunidade da Igreja
ou mesmo toda a humanidade. Vejamos cada qual dessas duas modalidades de
comunhão: a dos bens espirituais e a das pessoas vinculadas entre si por esses
bens espirituais.
1. Comunhão de bens espirituais
Os bens espirituais de que participam todos os fiéis, são ás méritos de Cristo,
que nos são comunicados pelos sacramentos e a graça sacramental. Ensina o
Catecismo Romano: "O fruto de todos os sacramentos pertence a todos os
fiéis. Com efeito, os sacramentos, principalmente o Batismo, que é a porta pela
qual se entra na Igreja, são igualmente vínculos sagrados que os unem a todos e os incorporam a Jesus Cristo. A comunhão dos
Santos é a comunhão efetuada pelos sacramentos... Mais do que a qualquer outro,
o nome de comunhão convém à Eucaristia, porque é principalmente ela que consuma
esta comunhão" (01.10.24).
Diz a Constituição Lumen Gentium no nº 26, que o mistério da Ceia do
Senhor é celebrado "para que, por meio da Carne e do Sangue do Senhor, se
estreitem, num só corpo, todos os irmãos".
Os méritos de Cristo frutificam também nos carismas. Estes são dons especiais
concedidos pelo Senhor para o serviço e a edificação da comunidade. Há os
carismas ordinários (o dom de tratar bem dos enfermos, o de saber educar
corretamente, o de transmitir eficazmente a Palavra de Deus, o de administrar
ou liderar sabiamente...) e os carismas extraordinários (glossolalia, profecia,
curas...). A comunhão com as coisas santas faz a comunhão com as pessoas santas.
2. Comunhão com as Pessoas Santas
Comungando com Cristo, os cristãos comungam entre si. Esta comunhão abarca, em
estreita solidariedade, os cristãos militantes na Terra uns com os outros, os
cristãos peregrinos neste mundo e os que já partiram, quer estejam glorificados
no céu, quer ainda estejam na expectativa do céu chamada purgatório.
2.1. Os cristãos peregrinos em mútua comunhão
Existe estupenda solidariedade entre os fiéis de Cristo uns com os outros e com
os demais homens. O Papa João Paulo II a lembra na sua Exortação Apostólica
"Reconciliação e Penitência": "A solidariedade, em nível
religioso, se desenvolve no profundo e magnífico mistério da Comunhão dos
Santos, graças à qual se pode dizer que cada alma que se eleva, eleva o mundo
inteiro. A esta lei de elevação corresponde infelizmente a lei da descida, de
modo que se pode falar de uma comunhão no pecado, em razão da qual uma alma que
se rebaixa pelo pecado arrasta consigo a Igreja e, de certa maneira, o mundo
inteiro. Por outras palavras, não há nenhum pecado, mesmo o mais íntimo e
secreto, o mais estritamente individual, que diga respeito exclusivamente
àquele que o comete. Todo pecado repercute, com maior ou menor veemência, com
maior ou menor dano, em toda a estrutura eclesial e em toda a família
humana" (n° 16).
O Papa Pio XII já formulara tal doutrina na seguinte passagem da encíclica Mystici Corporis: "No Corpo
Místico de Cristo nada de bem, nada de justo é realizado por algum dos membros
que, pela Comunhão dos Santos, não transborde para a salvação de todos... Ao
morrer na Cruz, Cristo comunicou à sua Igreja, sem colaboração da parte desta,
o tesouro ilimitado da Redenção. Quando se trata de distribuir esse tesouro,
não somente Ele compartilha com sua Esposa Imaculada a obra de santificação das
almas, mas Ele quer também que essa santificação brote da colaboração da
Igreja. Mistério certamente tremendo, que jamais meditaremos suficientemente: a
salvação de um grande número de almas depende das orações e das mortificações
voluntárias, suportadas com finalidade apostólica, dos membros do Corpo
Místico".
O Antigo Testamento já oferecia exemplos de intercessão: assim, Abraão rezou
por Sodoma e Gomorra (Gn
18,23-31), Moisés orou pelo povo rebelde (Ex 32,11-14), Jeremias
pela sua gente infiel (Jr 18,20). No Novo Testamento
ocorrem semelhantes casos: Rm 1,9; Ef 6,18-20; Tg 5,16.
Na história da Igreja existem belos testemunhos de cristãos que atribuíram
graças recebidas do Senhor à intercessão ou à vida santa de outros cristãos,
ainda que totalmente desconhecidos: Santa Teresinha de Lisieux
escrevia: "Veremos tantas coisas mais tarde! De vez em quando acho que sou
talvez o fruto dos desejos de uma alma pequenina, a qual deverei tudo o que
possuo" (Conseils et Souvenirs). "Muitas vezes,
sem o saber, as graças e as luzes que recebemos, são devidas a
urna afina escondida, porque o Bom Deus quer que os Santos comuniquem, uns com
os outros, as graças, mediante a oração".
Leon Bloy, eminente escritor católico francês, dizia:
"Tal impulso da graça que me salva de grave perigo, pode ter sido
provocado por tal ato de amor efetuado na manhã de hoje ou há quinhentos anos
atrás por uma pessoa muito modesta, cuja alma correspondia misteriosamente à
minha, e que assim foi recompensada" (Meditation
d un solitaire).
É de notar que também aqueles que vivem em pecado não somente podem ser
beneficiados pelas orações de seus irmãos, mas podem também beneficiar seu
próximo. Desde que rezem com reta intenção, podem colaborar para a salvação
alheia, pois, como ensina São Tomás de Aquino, qualquer pecador que ore por seu
irmão, é poderoso para obter o que ele pede em virtude da sua fé; cf Suma Teológica II/II, qu. 83,
art. 16; qu. 178, art. 2, ad
1.
2.2. Os cristãos peregrinos na Terra e os justos falecidos
A morte não interrompe a comunhão existente entre os seres humanos,
especialmente entre aqueles que pertencem ao Corpo Místico de Cristo. O Senhor
Deus, autor dessa comunhão, faz com que os justos no céu e no purgatório
conheçam nossas preces e, em conseqüência, possam orar por nós. Não há
comunicação direta entre o aquém e o além, mas Deus a propicia providencialmente.
Disto se segue, que e possível nossa oração aos irmãos que estão na glória do
céu, não para que nos dêem graças (Deus é a única fonte de todas as graças),
mas para que intercedam por nós, obtendo-nos as graças de que necessitamos. A
convicção desta verdade já era presente aos judeus do Antigo Testamento;
veja-se o texto de 2Mc 15,12-14: Judas Macabeu teve a
visão de Onias, Sumo Sacerdote, e Jeremias
profeta, ambos falecidos, que oravam pelo povo de Deus, posto em luta contra os
sírios pagãos.
A tradição cristã apresenta numerosos testemunhos de pessoas santas que, ao
partir deste mundo, asseguravam aos sobreviventes a sua solícita intercessão.
Assim dizia Santa Teresinha: "Se o Bom Deus ouvir os meus desejos, meu céu
se passará na Terra até o fim do mundo. Sim, quero passar meu céu a fazer o bem
sobre a Terra. Isto não é impossível, visto que, no próprio seio da visão
beatífica, os anjos velam por nós. Quando o anjo disser: `Não
existe mais tempo!' (Ap 10,6), então repousarei; poderei gozar, porque o número
dos eleitos estará completo... Meu coração exulta com este pensamento" (Verba).
Também com os irmãos que estão a se purificar, antes de entrar na glória
celeste, depois desta vida, continua a nossa solidariedade. Esta crença também
era familiar aos judeus do Antigo Testamento, pois rezavam em sufrágio dos
mortos, como atesta 2Mc 12,42-46.
Pergunta-se: podem as almas do purgatório rezar pelos peregrinos da Terra?
- São Tomás de Aquino e os teólogos, até o século passado, respondiam
negativamente, alegando que as almas do purgatório é que precisam de nossas
orações; nós devemos recorrer aos Santos do céu, e não a elas; cf S. Teológica II/II, qu. 83,
art. 11, ad 3.
No século passado, porém, aconteceu algo que permite responder afirmativamente:
o Papa Leão XIII, aos 14/12/1889 aprovou uma oração que pede às almas do
purgatório que roguem pelo Papa, pela exaltação da Santa Igreja e pela paz das
nações. O Concílio Vaticano II quis abster se de tocar no assunto.
Podemos, pois, dirigir-nos às almas do purgatório, mas não esqueçamos que elas
mais precisam de nossas preces do que nós precisamos das orações delas; temos
os Santos da glória celeste como intercessores qualificados.
(D. Estevão Bettencourt, OSB)
Editado e Respondido por Márcia Honda