EXISTE UMA DOR SEMELHANTE?
Como em outras ocasiões, acompanhei na semana passada, uma
família que repentinamente,
perdeu a primeira filhinha, a primeira neta, a primeira bisneta, de apenas sete
meses. Uma experiência que corta o coração, por um sentimento que nenhuma razão
humana pode explicar. Para os pais, que colhiam o fruto do amor cultivado há
anos e viam a Laurinha que
se tornava, cada dia, mais linda e alegre, que a cada momento se
tornava a razão do viver, que não viam a hora para voltar do trabalho e poder
brincar, rir, fazer careta, ter nos braços aquela criaturinha tão frágil, mas
tremendamente carregada de afeto e alegria sem medida. Tudo terminou de
repente. Inexplicavelmente ela dormiu e dormindo partiu para o paraíso. Como
disse a avó: Deus queria ela pertinho dele e não de
nós.
Com certeza, não é a primeira e nem será a última criança a
deixar o lar, nestas ou em outras situações semelhantes. Diariamente, vemos
fatos desta natureza, marcando por toda a vida uma distância infinita, deixando
marcar de saudades que só o tempo pode curar, ficando para sempre uma cicatriz
de boas e inesquecíveis lembranças. Um tempo que pode durar muito tempo,
dependendo do tempo que se tem para encontrar em Deus a melhor saída. As dores
e os sofrimentos, causados pela separação definitiva dos entes queridos, só
encontrarão o verdadeiro analgésico, se depositados na cruz do Senhor, cuja
vida verdadeira foi alcançada pela cruz assumida e carregada até o fim. Não
existe outra solução para vencer as espadas de dor transpassadas no
coração, a não ser aceitando-as como nossa e carregando-as com a força da fé no
Senhor que também gritou: “Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste”?(MT 27,46)
“Pai se for possível afasta de mim este cálice, porém não se faça a minha e sim
a tua vontade”.(MT 26,39)
Na aceitação das cruzes que Deus nos coloca, em momentos
totalmente inesperados, encontramos o caminho para ver mais longe e descobrir
neste emaranhado de sentimentos, o rosto amoroso do Pai-Deus. Assim a vida não
é um jogo onde só ganhamos, mas aprendemos a perder e perder pesado, a fim de
encontrar o verdadeiro sentido da vida. Por isso, diz o nosso Mestre: “Quem
quiser ser meu discípulo tome a sua cruz cada dia e siga-me”.(Lc 9,23). “pois o meu jugo é suave
e meu peso é leve”(MT 11,30). Essa experiência eu vi, no rosto desta família,
que mesmo chorando, lamentando, não se desesperaram em nenhum momento. Como é
diferente, quando se vive na fé e pela fé. Como é diferente, quando se tem uma
experiência de proximidade com Deus, cultivada na oração e na prática das
palavras do Messias, Senhor e Rei de nossas vidas.
Assim, concluo com um pensamento de Madre Tereza de Calcutá:
“Sempre tenhas presente que a pele enruga, o cabelo torna-se branco, os dias
convertem-se em anos....mas o importante não muda: tua
força e convicção não tem idade. Atrás de cada linha de chegada, há uma de
partida. Atrás de cada sucesso, há outro desafio. Enquanto estiveres vivo,
sente-te vivo. Se sentes falta do que fazias, volta a fazê-lo. Não vivas de
fotos amareladas...Continua, ainda que todos esperem que abandones. Não deixe
que oxide a fé que existe
Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá
SIAM - Serviço de Informação da
Arquidiocese de Maringá