Maringá, 19 de novembro de 2009

 

 

 

 

 

A ESPERANÇA QUE NOS FAZ LIVRES*

 

 

 

 

 

“É de Antoine de Saint-Exupéry a famosa frase: “Quando quiseres construir um navio, ensina às pessoas, o desejo ardente pelo mar”. Nesse desejo reside uma força, que nos torna capazes de buscar utopias bem concretamente. O desejo, o anseio, impulsionou as pessoas da Idade Média a construírem imensas catedrais. Essa arquitetura vivia do desejo. A música vive do desejo, do anseio. Abre uma janela para o céu. Última análise, cada arte é um brilho antecipado do eterno, daquilo que nunca houve, expressão do anseio por algo totalmente diferente.

 

 

 

Desejo e anseio têm força de explodir o concreto, de quebrar a couraça que construímos para ficarmos insensíveis diante do outro mundo possível. O anseio abre nosso pequeno mundo. Mantém aberto o horizonte acima de nós. O anseio não se fecha contra as realidades terríveis da vida. Ele nos coloca no trilho da esperança, que nos torna capazes de enfrentar a realidade sem nos deixar desesperados por causa dela”.(Anselm Grün).

 

 

 

Em cada passo de nossa existência somos movidos para fazer coisas, em busca de uma satisfação. Em tudo temos motivações que deixam sempre marcas de anseios e desejos, pelos quais vivemos e dedicamos o nosso tempo. São desejos e anseios justos, perfeitamente normais, dignos de luta e esforço. Como também existem lutas e até insônia para realizar anseios e desejo puramente passageiros, que muitas vezes só produz frustração. Nesta perspectiva, vale sempre e fica para sempre, os desejos e anseios que levam a criar vínculos, não somente com esta realidade. O maior anseio do ser humano, desde o jardim do Éden, foi ser como Deus. Apesar da desobediência, permaneceu em cada coração humano o desejo de eternidade.

 

 

 

Em clima de fim de ano, a cidade começa a tomar cores diferentes, planos e projetos para terminar bem o ano, programar as férias, viagens e encontros, tudo enfim, nasce de desejos e anseios de algo diferente. Sair para longe, buscar outros ares, encontrar outras pessoas, receber e dar presentes, satisfazer desejos de comprar o que não pode durante o ano. Tudo enfim, gira ao redor de um clima de consumo chegando às vezes, ao exagero. Pode parecer tudo muito justificado, porém, saber controlar traz equilíbrio emocional e paz de consciência. Às vezes é melhor saber esperar, do que gastar. Na esperança humana e divina encontraremos o verdadeiro sentido dos nossos desejos.

 

 

 

Na medida em que nos tornamos escravos ou dependentes de um desejo, de uma conduta, ou de uma coisa, a estrutura do vício começa a se formar. Para vencer os vícios sejam eles de que ordem são, se faz necessário lutar por algo que vai além do cotidiano e do banal. Assim, a liberdade que nasce de quem sabe lidar com seus desejos e anseios aponta para o infinito dentro de nós e abre um sentido de viver que traz gozo e satisfação. Por isso, nem tanto mar nem tanto a terra, diante de tantas provocações de uma sociedade materialista e consumista, saber controlar os desejos e anseios, é a melhor saída para viver essa época de festas.

 

 

 

Quem sabe já esquecemos que nosso Deus nasceu em uma manjedoura onde os animais comiam; talvez já apagamos de nossa memória que foi na periferia o lugar do nascimento do Rei; talvez a sociedade moderna fechou os olhos para a realidade de pobreza que rodeou aquela noite e rodeia as cidades de hoje. Quem sabe, neste fim de ano, possa nascer em todos, o desejo de ser melhores e o anseio por um mundo mais justo e mais fraterno, acreditando mais no Senhor Jesus, que liberta e salva. Isto é Natal!

 

 

 

 

 

 

*Dom Anuar Battisti é Arcebispo de Maringá-PR