FELIZES OS POBRES... O REINO LHES PERTENCE
“Nosso tempo
está marcado por um acúmulo de riquezas, cada vez maior. Muitas pessoas se
mostram ávidas de dinheiro e posses. Atrelam seu valor ao modelo de carro que
possuem ou à grife da roupa que usam. As crianças
também são vítimas disso. Na escola, tornam-se alvo de zombaria quando usam
tênis baratos ou roupas simples que não obedecem aos padrões dos shoppings. E
parece que a autoestima delas está tão baixa, que
buscam sua aceitação, usando objetos caros da moda. Isso mostra que confiam tão
pouco em si mesmas, que precisam de símbolos, de status externos para se
esconder” (Ansel Grun, “Bem
Aventuranças, Caminho para uma vida Feliz).
Esta breve descrição
de um monge contemplativo, retrata a dura realidade do
consumismo, plantada no coração de todos, a começar pelas crianças. Vivemos em
um mundo marcado pelas etiquetas e grifes, às vezes
fabricada no fundo do quintal por quem ganha uma miséria para confeccionar, e
na loja, se paga o que não vale, só porque tem ali estampado uma letra, um
símbolo, uma marca convencionada na mídia, por um personagem importante.
Infelizmente o
consumismo se alimenta de cada um de nós. Perguntamos então, o que fazer? Eu
fui buscar uma resposta em um texto, escrito dos anos
“Os bens estão
em nossas mãos como ferramenta, como instrumentos dos quais retiramos bom uso,
se soubermos manipulá-los. A natureza fez das riquezas, escravas e não senhoras.
Destruamos pois, não os nossos bens, mas a cobiça...
Nada lucrais em largar o dinheiro que tendes se continuardes a ser ricos em
desejos desenfreados”. Eis de que forma concebe o Senhor o uso dos bens
exteriores. Temos de nos desfazer, não de um dinheiro que nos permite viver,
mas das forças que nos levam a usá-lo mal....temos de
purificar a nossa alma, isto é. torná-la pobre e nua, para nesse estado
ouvirmos o chamamento do Salvador: “Vem e segue-me”. (Esse texto é do Teólogo
Clemente de Alexandria que viveu
O coração humano
é insaciável, tem desejos incontroláveis, sentimentos de toda ordem, e o pior
de tudo que vivemos continuamente, pensando, tramando, articulando, fazendo de
tudo para saciá-los. Saciado agora, se
acalma, se tranqüiliza, e de repente se dá conta de que “eu não precisava
disso”, “poderia viver sem ter gasto nisto ou naquilo”, porque assumi este
compromisso financeiro agora?
Quantas dores de
cabeça, quanto estresse,
por não usar a cabeça, a razão, cuja característica nos fazem
diferentes dos outros seres. Como dizia Clemente: destruamos não os bens e sim
a cobiça. Pessoas fartas, totalmente saciadas, nunca
estão plenamente realizadas. A felicidade está em viver livres, ser livres
diante das dos bens materiais que falsamente prometem felicidade.
Assim, esta
primeira bem-aventurança é um caminho para a liberdade e para a verdadeira
felicidade. Ao mesmo tempo esta bem-aventurança é dirigida para todos aqueles
que não têm nada em suas mãos, se sentem impotentes diante de Deus, e colocam
toda a esperança Nele.
Certamente,
neste mundo onde os pobres não só perderam os bens materiais, mas a própria dignidade, precisamos olhar a segunda parte desta promessa
de Jesus, onde encontramos o rosto da felicidade. Após a bem-aventurança dos
pobres em espírito, segue a frase: “pois o Reino dos Céus lhes pertence”. Reino
dos Céus é o mesmo que dizer Reino de Deus, ou seja, é o lugar onde Deus mora,
reina, vive. O pobre em espírito renuncia ao poder e ao domínio de tudo, para
deixar Deus dominar em seu próprio coração.
*Dom Anuar Battisti é Arcebispo de Maringá